| Marujada existe o ano inteiro e movimenta a economia em Bragança |
| Por Agência Pará | ||||||
| 29-Dec-2008 | ||||||
|
A marujada não acabou. Continua nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro, quando juiz e juíza passam o bastão para os novos promesseiros que estão numa lista de espera como pretendentes ao cargo até 2017. Quem vê a marujada nos dias 25 e 26 não sabe que a festividade começa a ser preparada oito meses antes, precisamente em maio. A partir desse mês começa a peregrinação dos esmoleiros pelas regiões dos campos, das praias e das colônias. Eles ficarão oito meses longe de suas famílias e de seus lares. A missão dos esmoleiros é garantir a festa anual do co-padroeiro de Bragança. Uma jornada árdua, difícil, mas abençoada por São Benedito. Cada grupo de 14 homens, na maioria quem tem uma promessa a pagar, viaja a pé o tempo inteiro. A força e a fé do grupo se reforçam na companhia de uma imagem do Santo Preto, que cada grupo carrega. Cada casa recebe a imagem e tem direito a uma ladainha em homenagem ao Santo cantada e tocada pelo grupo. A família oferece almoço, jantar ou lanche ao grupo. Também ficam hospedados na casa aonde jantam. Os esmoleiros recolhem donativos dos devotos do Santo em lugares que estão além do território do município, que mede 2.033 quilômetros de extensão. São arrecadados dinheiro, víveres de muitas espécies, como gado, porco, carneiro, pato, galinha, entre outros, e ainda frutas de tipos variados. Os objetos, víveres e frutas são leiloados na manhã do dia 26. No leilão tem uma brincadeira que também entrou para a tradição. Ninguém sabe precisar quando começou, mas foi incorporada à festividade. É a guerra da pitomba. Famílias, amigos e novatos entram na brincadeira. Começa quando há o primeiro arremate de um cacho da fruta. A partir daí todas as mesas arrecadam um ou mais cachos de pitomba. A fruta é chupada e caroços e cascas são arremessados em outro grupo, de outra mesa, que revide ou passa em frente e assim vai até o final do leilão. Economia – Todo o dinheiro arrecadado é usado para custear a festividade e a própria esmolação, segundo informou a secretária da catedral de Nossa Senhora do Rosário, Aldeise Fernandes, uma das responsáveis pela arrecadação. Segundo Aldeise este ano o leilão rendeu R$ 19 mil, um pouco maior que em 2007, quando foram arrecadados R$ 18 mil. O mês de dezembro no município de Bragança é considerado pelos empresários e comerciantes como o mês da grande temporada. Para se fazer uma idéia, nos outros meses do ano, uma residência para locação que custaria R$ 300, em dezembro chega a R$ 1 mil, com lista de espera. No início do ano os turistas da marujada começam a fazer suas reservas nos hotéis. Até os motéis de Bragança, ao todo três, lotam. “Meu faturamento cresce 200% em dezembro, maior até mesmo que em julho, quando a porcentagem do aumento de lucro chega a 70%”, garante José Joaquim da Silva, proprietário de um restaurante, localizado às margens do rio Caeté, no largo de São Benedito. De acordo com a empresária Glafira Braun, que comanda um hotel e um hospital na cidade, o crescimento do setor hoteleiro chega a 80%. Ela garante que os dados do mês de dezembro dão conta de que a prefeitura arrecada 50% a mais de Imposto Sobre Serviço (ISS). Há ainda o aumento de empregos temporários. Glafira contratou cinco funcionários para o hotel e mais 10 profissionais para o hospital, incluindo médicos e enfermeiros. A empresária arrisca que o comércio de bebidas e comidas são os mais lucrativos. Glafira Braun, bem informada, disse que dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dão conta de que em dezembro o número de pessoas na cidade chega a triplicar. Segundo o IBGE, Bragança tem 107 mil habitantes. O comércio informal, com ambulantes de todos os gêneros, é intenso e amplo. Irmandade - Na história está marcada a data de 3 de setembro de 1798 como a de fundação da Irmandade de São Benedito. O historiador Dário Benedito Rodrigues suspeita que a marujada tenha começado antes dessa data. Em todo o caso, segundo ele, a irmandade começou com 14 irmãos escravos, que no dia de natal eram dispensados de suas obrigações pelos seus senhores e podiam fazer a festa. Os escravos, nesse dia, recebiam dos senhores as sobras dos banquetes de natal. Nesse dia estavam livres para cantar, rezar e orar pelo santo de sua devoção. São Benedito é considerado o santo mais popular entre todos e é chamado “Santo dos Pobres”. Além do culto ao Santo Preto, os 14 irmãos decidiram que fundariam uma igreja para o santo e assim começou o movimento de esmolação. Dário Rodrigues comenta que eles chamavam esse processo de arrecadação de jóias, uma expressão simbólica para os donativos. Na história também há informação de que a igreja construída pela irmandade para ser de São Benedito era a que é hoje a de Nossa Senhora do Rosário. E que a matriz, de Nossa Senhora do Rosário, ficou de 1753 a 1872, na igreja de São Benedito. Os historiadores falam de uma troca, que teria sido feita sem conflitos, ou seja, de comum acordo entre a igreja católica e os membros da irmandade de São Benedito. Os elementos da tradição na marujada se mantém originais, entre eles as danças, os pés descalços, os almoços ofertados por quem está em posição de destaque na hierarquia, como no início, em que o almoço da festa era doado pelos senhores aos escravos. A esmolação continua, não com a mesma finalidade de construir igreja, mas de garantir a festividade, a homenagem e o agradecimento ao São Benedito.
3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved." |
||||||